Joaquim Tauzene, Rádio Pax Beira Moçambique
Fortalecer a agricultura em África é considerado fundamental para garantir alimentos à população, reduzir a dependência de produtos importados e criar novas oportunidades de crescimento económico. Para especialistas, o uso da biotecnologia na agricultura, aliado a uma maior participação do setor privado, pode ajudar a transformar a produção e abrir espaço para que os pequenos agricultores tenham acesso aos mercados regionais da SADC.
O diretor-executivo da African Agricultural Technology Foundation (AATF), Dr. Canisius Kanangire, alerta que, apesar dos avanços registados na tecnologia agrícola, milhões de africanos continuam a enfrentar fome e insegurança alimentar. Segundo Kanangire, cerca de 20% da população africana passa fome, enquanto 58% vive em situação de insegurança alimentar. As projeções indicam ainda que, até 2030, cerca de 512 milhões de pessoas poderão continuar a enfrentar a fome, sendo que 60% desse número estará em África.
É neste cenário que a biotecnologia agrícola ganha destaque como uma das possíveis respostas aos desafios do setor. O desenvolvimento de culturas mais adaptadas às condições africanas, como milho, feijão, arroz, batata, banana, mandioca e cana-de-açúcar, pode ajudar os agricultores a produzir mais, enfrentar melhor as pragas e doenças e resistir aos efeitos das mudanças climáticas. As chamadas variedades biofortificadas podem ainda contribuir para melhorar a qualidade nutricional dos alimentos consumidos pelas populações.
Mas, para quem vive diariamente da agricultura, transformar essas possibilidades em resultados concretos continua a ser um desafio. Em Sofala, a União Provincial dos Camponeses alerta que as mudanças climáticas, a falta de financiamento e as dificuldades no acesso a sementes de qualidade estão a limitar a produção. A presidente da organização, Christina Richard-Madison, explica que a irregularidade das chuvas e os períodos de calor intenso têm provocado perdas nas culturas e dificultado o planeamento das campanhas agrícolas.
Segundo a responsável, há zonas onde o milho foi afetado pelo excesso de sol, enquanto noutros distritos as chuvas registadas não foram suficientes para garantir uma boa colheita. A realidade mostra, assim, que os agricultores já não conseguem depender apenas dos padrões tradicionais de chuva para decidir quando e o que plantar.
Outro problema está relacionado com o acesso às sementes. Muitos pequenos produtores continuam a recorrer a sementes nativas por serem mais baratas e poderem ser reutilizadas de uma campanha para outra. No entanto, essas sementes nem sempre apresentam resistência suficiente às condições climáticas adversas. As sementes melhoradas, por outro lado, podem oferecer maior produtividade e resistência, mas o seu preço acaba por ficar fora do alcance de muitas famílias camponesas.
A situação também é sentida pelas associações que trabalham diretamente com os produtores. Manuel Gonçalves, da Associação Comunitária para o Desenvolvimento Social Integrado (ACODES), afirma que a instabilidade do clima tem tornado cada vez mais difícil prever o comportamento da campanha agrícola. Para além das condições climáticas, o responsável chama atenção para a falta de assistência técnica, que pode levar alguns agricultores a comprar sementes de baixa qualidade.
Na prática, a combinação entre sementes inadequadas, falta de acompanhamento técnico e alterações no clima pode transformar uma campanha agrícola numa aposta de alto risco para famílias que dependem da agricultura para garantir o seu sustento.






