Joaquim Tauzene, Rádio Pax – Beira, Moçambique
O analista político e docente universitário Samuel Simango considera que o julgamento de Venâncio Mondlane deve ser visto por diferentes ângulos: político, social e jurídico.
Em entrevista à Rádio Pax–Emissora Católica da Beira, Simango diz que, apesar de existir uma acusação formal e um processo judicial, a origem do caso está ligada aos acontecimentos que se seguiram às eleições de 2023 e 2024.
Os resultados eleitorais foram contestados por vários partidos da oposição e, depois disso, seguiram-se manifestações em diferentes pontos do país. É neste ambiente que surgem as acusações que hoje pesam sobre Venâncio Mondlane.
Para Simango, o processo é jurídico, mas tem também uma forte componente política, por envolver um ator político e acontecimentos ligados à contestação eleitoral.
O docente universitário recorda outros momentos da política moçambicana. Cita, por exemplo, as manifestações protagonizadas pelo antigo presidente da RENAMO, Afonso Dhlakama. Segundo Simango, naquela altura, situações de confrontos e desacatos não tiveram o mesmo encaminhamento para os tribunais.
Desta vez, diz, os próprios actores políticos acabaram por levar o assunto para a justiça.
Questionado sobre a possibilidade de o antigo Presidente da República ser chamado a prestar declarações, Simango mostra-se reservado. Diz que existem elites políticas em disputa e entende que seria difícil a elite que hoje controla o Estado levar um dos seus membros à barra do tribunal.
Para o analista, uma situação dessa natureza poderia dar ao julgamento uma dimensão política que, na sua leitura, a elite vencedora não estaria interessada em assumir.
A análise de Simango estende-se também aos assassinatos e às perseguições políticas. Recorda que membros da RENAMO foram vítimas de assassinatos quando o partido tinha maior força política. O mesmo, afirma, aconteceu mais tarde com membros do MDM e, atualmente, com pessoas ligadas a outras forças políticas.
Na opinião do analista, a repetição destes casos não deve ser encarada como simples coincidência. Defende que o fenómeno precisa de ser estudado para perceber o que permite que estes assassinatos continuem a acontecer na política moçambicana.
Simango, relaciona esta situação com o atual diálogo nacional inclusivo. Questiona como pode haver inclusão e reconciliação quando pessoas ligadas à política continuam a ser mortas.
Para ele, se uma parte dos moçambicanos é excluída através da violência, o próprio diálogo nacional fica comprometido.
Sobre o desfecho do julgamento de Venâncio Mondlane, Samuel Simango, evita fazer previsões. Diz apenas esperar que a justiça seja feita, que a democracia seja consolidada e que o processo não seja usado para eliminar ou afastar actores políticos.
O julgamento de Venâncio Mondlane, inicialmente marcado para 6 de Outubro, foi entretanto adiado na sequência de um pedido apresentado pela defesa. A nova data deverá ser conhecida posteriormente.


