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A crónica sobre a distinção (Craveirinha) a Marcelo Panguana

74 pessoas na sala. Glória Hotel. Cidade de Maputo. Entre os convidados, 62 almas acompanham, sentadas, a cerimónia organizada pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) em parceria com a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB). As outras 12 esmeram-se nas filmagens, a reposicionar os microfones ou a afinar o som, sempre em constantes movimentos à busca da perfeição.

Em algum lugar da sala, autores, editores e jornalistas sussurram palavras quase ininteligíveis: Quem será? Escutamos ao mesmo tempo que reparamos nos eventuais candidatos ao Prémio José Craveirinha. A resposta vem de um repórter que, depois de um raio x a cada autor presente, conclui que adivinhar não é assim tão difícil, quando a palavra mérito faz todo sentido…

Marcelo Panguana. Sentando mais ou menos na quinta fila, do lado esquerdo da sala, do lado esquerdo também tem a sua esposa Helena Cumbe.

Enquanto o evento acontece, com a competente mestre-de-cerimónia que é Julieta Mussanhane, os convidados vão-se cumprimentando como podem. Geralmente à distância, entre olhares e sorrisos. Do lado detrás da sala, vimos tudo e ainda mergulhamos na expectativa das pessoas. De vez em quando, os celulares saem do bolso ou da bolsa para a carga ser avaliada, afinal, no, derradeiro instante, ninguém quer ficar para trás.

Enquanto a cerimónia avança, com os habituais discursos protocolares que, nesses casos, parecem truques para prolongar a ansiedade, de vez em quando as pessoas vão mudando de lugar como quem pretende o melhor ângulo para a fotografia. Claro, nas primeiras filas é que não há nada disso, pois a família Craveirinha (bem representada pelo filho do poeta), o representante da HCB e a presidente do júri cumprem o protocolo de estarem serenos e quietos.

Avaliamos então o suspeito da noite. No mesmo lugar, com a perna direita cruzada sobre a esquerda, está ali um maronga gingão fino, bem a lembrar-nos o Cabaço. Aparentemente, Marcelo fingi que não sabe o que vai acontecer dentro de instantes. Sereno e com ar de boa gente como marca, vai acompanhando a cerimónia feito um sujeito da reconciliação, conforme diria Castiano. Às vezes, apreciando a esposa num de gesto de amor manifesto em silêncio. Helena Cumbe não é ingénua. Aquela mulher, com quem se conversa facilmente, compreende o que o esposo pretende transmitir e ela retribui com a mesma intensidade no olhar. Até aí, entretanto, ambos evitam contactos físicos e, talvez, assim conseguem ficar invisíveis à maioria (mas não ao jornalista que escreve esta crónica).

Palavreados à parte. Perto das 18 horas deste 31 de Agosto, o dia em que a AEMO celebrou 41 anos de existência, finalmente, Julieta Mussanhane convida a presidente do júri do Prémio José Craveirinha para anunciar o autor laureado nesta edição. Os operadores de câmara precipitam-se a encontrar o melhor lugar para filmar e as conversas, de repetente, sessam em toda a sala. É obviamente o momento mais aguardado.

Sara Jona Laisse, uma 7 de Abril gira e que transborda elegância, levanta-se e dá uns 10 passos até ao pódio. No entanto, mal começa a falar, tem se esquecer a acta por alguns minutinhos, pois o Governo de Moçambique não quer perder o momento. A ensaísta anuncia a entrada se Sua Excelência Eldevina Materula, que, naquele passo acelerado típico dos governantes, entra pela sala sorridente e ainda pisca-nos um olho a cumprimentar com simpatia. – Remédios, como estás? Os ajudantes de campo não cedem muitos espaços e só conseguimos retribuir com o mesmo afecto estampado no rosto. – Estamos bem! Isso já não foi possível dizer.

A Ministra chega à zona nobre da sala, onde também se encontra o Secretário-Geral da AEMO, Carlos Paradona. Senta-se e, com todo o protocolo observado, os convidados também imitam o gesto. Por isso, Sara Jona Laisse começa a ler a acta do júri, em alguns momentos, meio em jeito de defesa, quiçá porque a coisa dos prémios em Moçambique é complexa:

– A atribuição de um prémio literário acarreta sempre um elevado grau de subjectividade e a esperança de recolha de unanimidade é uma utopia.

Disse Sara Jona Laisse, acrescentando que, entretanto, o júri teve o privilégio de sair do primeiro encontro de trabalho com uma espécie de consenso em relação ao autor a ser laureado. Assim, no dia 24 de Agosto, o júri decidiu atribuir, por unanimidade, o Prémio Carreira José Craveirinha de Literatura a… (Sara Jona Laisse ainda provoca uma pausa de suspense): Marcelo Panguana.

Aí os celulares saem da cartola. Num gesto de mágica, poetas, escritores, editores, leitores, incluindo os velhotes que até antes de ontem não sabiam atender uma chamada num smartphone, poem-se a filmar, atrapalhados porque também iam batendo palmas. Portanto, as filmagens e as fotografias não devem ter sido grande coisa. Claro, Sara Jona Laisse interrompe a leitura da acta por uns três minutos. A sala está muito alegre. O júri tinha feito justamente o que os presentes, aparentemente, queriam.

Calor humano. Marcelo Panguana imita o gesto e também bate palmas com algum fervor. Sentado. Com a perna cruzada de um maronga gingão. Depois, a cereja em cima do bolo. Vira-se para a esposa e beija-a várias vezes. Contagiante. Só falta kulungwanas, mas os escritores parece que são péssimos quanto aos exercícios com a língua. Tudo resume-se às mãos. Então aumenta a intensidade das palmas, deixando Marcelo Panguana constrangido. Tenta disfarçar, todavia não consegue. A presidente do júri, com efeito, salva o autor de Como um louco ao fim da tarde porque volta a ler a acta, apontando para os argumentos da escolha:

– Na escolha do júri e, para além dos critérios regulamentados, indicadores como humanismo, activismo e associativismo, produção jornalística e editorial, apadrinhamento de escritores, participação em causas e projectos sociais e respeito pelo ser humano, foram tidos em conta e com igual peso dos critérios do regulamento.

E o júri (Sara Jona Laisse, Jorge Ferrão, Manuel Tomé, Aíssa Mithá e Frederico Jamisse) ainda acrescenta:

– Marcelo Panguana constitui, para o júri do Prémio Carreira José Craveirinha, edição 2023, um dos maiores e completos e complexos expoentes da literatura moçambicana tendo já publicado nos géneros e formas como poesia, conto, crónica, romance, literatura infantil, entrevista e ensaio.

Dito isso, Marcelo Panguana é chamado ao palco. Levanta-se. Beija novamente a esposa. Caminha vagarosamente. Passa por vários amigos, que filma… Entre eles, Juvenal Bucuane e Ídasse. Chega ao pódio atrapalhado. Já está diante do microfone, mas não sabe o que dizer. Atrapalha-se ainda mais. Agora está a transpirar. Pensa tirar o casaco preto, mas lembra-se que ali se encontra a Ministra da Cultura e Turismo. Então o jornalista é o único que sabe dessa precaução.

Fala. Não diz nada de concreto. Mas a voz é boa de se ouvir. Mesmo quando não diz nada de grandioso, Marcelo é um homem fino, fácil de amar e respeitar. Algumas jovens bonitas apreciam o escritor com um olhar feroz! Se não for pela elegância e inteligência que transparece, o que não fazem 25 mil dólares, minhas senhoras e meus senhores?

Marcelo, entretanto, não pensa no dinheiro. Agradece a Deus pelo dom da vida e pelas bênçãos; agradece à AEMO e à HCB; agradece aos seus confrades e, sobretudo, à sua esposa, “a mais bela entre todas as coisas!”. Ela não é distraída. Marca presença na sala, agora, levantando a mão direita, como quem diz: Se ainda não perceberam, sou eu a esposa dele.

Palmas. Fotos. Filmagens. Neste instante, Marcelo Panguana deve estar a ouvir Stairway to heaven, dos Led Zeppelin. O Olimpo é seu. Improvisa e acerta. Depois, tenta ir sentar-se. Qual sentar qual quê… Os amigos e confrades de sempre abraçam o homem com entusiamos e etc. De ciúmes não estamos a tratar. Poderiam ter dito.

Celebração total.

A Ministra da Cultura e Turismo começa a intervir. Percebe que tem de esperar. É atenta. Um político aparvalhado continuaria a falar ou a ler mesmo sem condições para isso. Eldevina Materula, habituada ao meio artístico, ajuda a color a festa mantendo os holofotes em Marcelo Panguana.

Ao fim de uns quatro minutos depois de abandonar o pódio, o escritor abraça com paixão a esposa. A Ministra logo remata: Fotógrafos, não percam esse momento. Não perdem. Registam o abraço até que o laureado volta a sentar-se. É então que a Ministra defende a necessidade de se celebrar Marcelo Panguana. Os convidados concordam. Tanto que, no final da cerimónia, já em voz audível, repetem: Fez-se justiça! Parece que as coisas estão a mudar!

Fonte: O Pais

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