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Na ONU, líderes africanos querem ser parceiros e não marginalizados

ABUJA, Nigéria (AP) – Os discursos de líderes africanos na Assembleia Geral da ONU, este ano, têm uma mensagem enfática e unânime: o continente deixou de ser vítima de uma ordem pós-Segunda Guerra Mundial. É uma potência global e deve ser parceiro dela – e não marginalizado.

A maior parte de África registou uma vida inteira de independência — cerca de 60 anos — e o continente com mais de 1,3 mil milhões de pessoas está mais consciente dos desafios que sufocam o seu desenvolvimento. Há também uma nova ousadia que acompanha o assento da União Africana no G20.

“Nós, como África, viemos ao mundo, não para pedir esmola ou caridade, mas para trabalhar com o resto da comunidade global e dar a cada ser humano neste mundo uma oportunidade decente de segurança e prosperidade”, disse o presidente queniano, William Ruto.

Nos últimos anos, o continente africano tem sido claro sobre a sua capacidade de se tornar uma potência global, desde os esforços para combater as alterações climáticas a nível interno, apesar de contribuir, de longe, com menos para o aquecimento global, ou a ajuda na promoção da paz noutros lugares, como na Rússia e na Ucrânia.

No seu discurso, o Presidente do Gana, Nana Akufo-Addo, culpou as “injustiças históricas” pelos desafios actuais de África e apelou a reparações pelo comércio de escravos.

O Presidente Cyril Ramaphosa, da África do Sul, disse que o continente está preparado para “recuperar a sua posição como local de progresso humano”, apesar de lidar com um “legado de exploração e subjugação”.

O líder da Nigéria, Bola Tinubu, apelou aos seus pares para que vejam a região não como “um problema a ser evitado”, mas como “verdadeiros amigos e parceiros”.

“África é nada menos do que a chave para o futuro do mundo”, disse Tinubu, que lidera um país que, até 2050, deverá tornar-se o terceiro mais populoso do mundo.

Com o maior bloco de países nas Nações Unidas, é compreensível que os líderes africanos exijam cada vez mais uma voz maior nas instituições multilaterais, disse Murithi Mutiga, director do programa para África no Crisis Group.

“Esses apelos aumentarão especialmente numa altura em que o continente está a ser cortejado por grandes potências no meio de uma crescente competição geopolítica,” disse Mutiga.

Paradoxo

À margem da ONU, o Banco Africano de Desenvolvimento mobilizou alguns líderes políticos e empresariais num evento denominado “África Imparável”, uma frase vista como um reflexo das aspirações do continente poucos dias depois da primeira Cimeira do Clima em África ter apelado aos países mais ricos para manterem as suas promessas climáticas — e investir.

Mas com uma população jovem que deverá duplicar até 2050, África é a única região em rápido crescimento onde a sua população está a ficar mais pobre e onde alguns estão a celebrar a tomada desenfreada de governos democraticamente eleitos por militares.

“África é um paradoxo”, disse Rashid Abdi, analista-chefe da organização Sahan Research, com sede em Nairobi. “Não é apenas um continente de esperança cada vez menor; há partes de África onde vemos inovação, pensamento progressista e soluções muito inteligentes.”

Abdi disse que o mundo está cada vez mais interessado em África e na forma como contribui para os atuais desafios globais.

“Há definitivamente potencial para África ser mais assertiva e impulsionar mudanças progressivas e mais justas no sistema global”, disse Abdi.

Para Akufo-Addo, do Gana, a correcção de uma ordem mundial “injusta” deve começar com o pagamento de reparações da época em que cerca de 12,5 milhões de pessoas foram escravizadas, de acordo com a frequentemente referenciada Base de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos.

“É hora de reconhecer abertamente que grande parte da Europa e dos Estados Unidos foi construída a partir da vasta riqueza colhida do suor, das lágrimas, do sangue e dos horrores do comércio transatlântico de escravos e dos séculos de exploração colonial”, disse Akufo-Addo.

Um assento à mesa

O continente depende fortemente da ajuda externa para as suas necessidades de desenvolvimento, recebendo a maior parte da ajuda global total, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, com sede em Paris.

Ainda assim, continua a sofrer com um sistema financeiro global que obriga os seus países a pagar oito vezes mais do que as nações europeias mais ricas, resultando num aumento da dívida que consome o que resta das receitas cada vez menores do governo.

Em 2022, a dívida pública total de África atingiu 1,8 triliões de dólares, 40 vezes mais do que o orçamento de 2022 do maior país do continente, a Nigéria, de acordo com a agência das Nações Unidas para o comércio e o desenvolvimento.

“África não tem necessidade de parcerias baseadas na ajuda oficial ao desenvolvimento que seja politicamente orientada e equivalente à caridade organizada”, afirmou o Presidente Felix-Antoine Tshisekedi da República Democrática do Congo. “Os subsídios filtrados pelos interesses egoístas dos doadores certamente não permitirão uma ascensão real e efectiva do nosso continente.”

O país de Tshisekedi possui as maiores reservas mundiais de cobalto e é também um dos maiores produtores de cobre, ambos essenciais para a transição para energias limpas.

Em vez disso, o que África precisa, segundo o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, é de um sistema financeiro global mais inclusivo. Em tal sistema, disse Nyusi, os africanos podem participar como “um parceiro que tem muito para oferecer ao mundo e não apenas um armazém que fornece produtos baratos a países ou corporações multinacionais internacionais”.

Desafios estão por vir

A capacidade de África não reside apenas na sua população, mas também nos seus ricos recursos naturais. No entanto, falar com uma voz colectiva é dificultado por políticas com enfoque nacional, em vez de políticas regionais, disse Ibrahim Mayaki, enviado especial da União Africana para os sistemas alimentares.

“O principal obstáculo ao desenvolvimento de África é a sua fragmentação em mais de 50 países”, disse Mayaki num evento em Nova Iorque organizado pela organização Africa Center.

No continente rico, pelo menos, metade dos seus 54 países estão entre os 30 menos desenvolvidos do mundo, de acordo com o mais recente Índice de Desenvolvimento Humano da ONU.

Fonte: Voaportugues

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